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quinta-feira, 15 de março de 2012

Coisas de Nhangapi



 
Sei que muitos vão ler esse post e não farão a menor ideia do que estou falando. Outros, que talvez nem frequentem a Blogosfera, compartilharão sem pestanejar dos meus sentimentos com relação a esse lugar. Sim, Nhangapi é um lugar. Um vilarejo afastado da cidade de Itatiaia, que fica na beira da Via Dutra. Mas embora esse lugarzinho tenha suas simpáticas particularidades, com pessoas simples e acolhedoras, o assunto não é especificamente esse, mas o local onde trabalhei por dois anos e meio, o Posto Fiscal de Nhangapi. Esse sim, tem muito mais particularidades que conheci bem.

E como hoje preciso desestressar, resolvi fazer um post com os melhores momentos de Nhangapi, os mais engraçados, românticos e, por que não dizer, típicos momentos vividos naquele lugar?

Funcionava assim: Os plantões eram de 24/72, ou seja, eu entrava 10 da manhã, saía às 10 da manhã do dia seguinte e voltava dali a três dias, de forma que haviam 4 grupos, de cerca de 10 a 15 pessoas, revezando nesse esquema. Ops... como era um posto de fiscalização de ICMS, a palavra ESQUEMA era proibida (uma das coisas de Nhangapi), qualquer menção a essa palavra dava margem pra alguém achar que você era um funcionário corrupto que estava ali para burlar a lei e estorquir caminhneiros.

Mas enfim... passar 24 horas com pessoas que você não conhece te faz criar um turbilhão de emoções e sentimentos. Às vezes nos sentíamos como no BBB, presos ao lugar, a pessoas esquisitas, e não tinha como sair nem pra onde fugir até terminar o plantão. Aliás, acho que me lembro de ter promovido um paredão informal numa madrugada de sábado com meus parceiros mais chegados. É uma pena que aquele indesejável não saiu de verdade.

Foram muitas experiências. Eu, particularmente, fiz parte de dois dos grupos que revezavam entre si, então, acho que posso dizer que tive experiências em dobro. E no meu entendimento, a lista das coisas de Nhangapi não poderia começar de outra forma:

1 - Não aceitar bala de caminhoneiro - Pois eh, não podia aceitar nada que um caminhoneiro oferecesse, muito menos bala, rsrsrs. Até hoje não entendi essa regra, será que alguém imaginava que íamos liberar alguma mercadoria sem nota fiscal em troca de bala? Chefe tem cada ideia, que prefiro nem comentar ¬¬

2 - Pegar carona escondido no final do plantão - Entre as coisas que não se podia aceitar de caminhoneiro, a mais enfatizada, depois da bala, era a carona. Isso porque Nhangapi fica depois do fim do mundo, e a maioria dos funcionários morava em outras cidades. Para piorar, o Governo do Estado não pagava nossa passagem. Então quando terminava o plantão, rolava mó esquema (esquema não... procedimento) com o plantão seguinte. Eles faziam uma seleção de caminhões que fossem para o nosso destino, que tivesse lugar pra dois - as meninas nunca iam sozinhas - e o caminhoneiro tivesse "cara de bonzinho". Outro grupo vigiava os fiscais e supervisores. E quando entrávamos no caminhão pra ir pra casa, o gosto era de aventura, uma sensação de estar vivendo perigosamente kkkkkkk.

3 - Churrasco no Posto - Tinha um restaurante desses de parada na estrada, que ficava colado no Posto Fiscal, era tipo uma franquia que ficava no posto de gasolina dali. Todo domingo o cardápio era churrasco. Então nós calculávamos quando o plantão cairia no domingo e todo mundo levava dinheiro pra almoçar lá. Tínhamos uma galerinha fixa, juntávamos umas quatro mesas e ficávamos mais de hora batendo papo, falando mal do chefe (Sérgio Cabral) e seus puxa-sacos, e nos preparando psicologicamente para o restante de plantão.

4 - Campeonato de buraco na madrugada de sábado - Foi em Nhangapi que aprendi a jogar buraco. E era engraçado, porque eu não conhecia as regras e sempre deixava meu par boladão, ninguém queria jogar comigo, rsrsrs. Muito menos os trapaceiros, como o Edu, porque eu não sabia nem jogar direito, que dirá os macetes de trapacear no jogo!

Sei que a lista é infinita, mas resumindo as Coisas de Nhangapi, tinha:

  • O pão com carne do "pé sujo" de madrugada, que o tio sempre fazia na hora pra gente, porque ninguém queria aquele que já tava na estufa;
  • Saída em Caravana para comprar pão à tarde no mercadinho do bairro, que alguns chamavam de padaria (na verdade uma desculpa pra fugir um pouco do trabalho);
  • Os bichos esquisitos que apareciam no verão e infestavam cada pedacinho do lugar, agarravam no cabelo das meninas e nos levavam ao desespero;
  • As brigas pra não ficar na cabine. No meu caso, para ficar lá, eu odiava a recepção;
  • "Grupo coeso" - só um grupo em específico entenderia;
  • Cobra Cascavel econtrada na porta dos dormitórios masculinos, que aliás, me fez ficar quase um mês sem aparecer nos dormitórios à noite;
  • Briga de estilos musicais na cabine - pagode x eletrônica x funk x MPB (\o/)... Ah, não podia esquecer: todos esses versus KLB rsrsrsrs;
  • Tomar cerveja escondido de madrugada;
  • Briga pra dormir no segundo horário (revezávamos em dois horários de madrugada: um grupo dormia de 22:00 às 3:00 e o segundo grupo de 3:00 às 8:00 - que todo mundo queria);
  • Briga de SEFAZ contra SEGOV - Ah, essa vale a pena explicar. Os funcionários da SEFAZ eram os concursados, dos quais eu fazia parte. Salário de R$ 860,00 sem vale transporte, alimentação, adicional noturno... Os SEGOV eram os apadrinhados políticos que chegaram depois. Salário de R$ 3.500,00 e toda uma estrutura que os SEFAZ nunca tinham visto. Chegaram se achando nossos chefes e tinha briga todo plantão, o que hoje em dia é engraçado, mas na época... durante a TPM eu faltava pouco para chegar às vias de fato. Mas eles andavam armados, era complicado, rsrsrss.

Bem, eu não seria hipócrita a ponto de dizer que sinto saudades de Nhangapi, de forma alguma. Estou muito melhor agora, graças a Deus. Mas o que posso dizer com toda propriedade é que tive bons e maus momentos, e que vivi cada um desses momentos com intensidade. Chorei, briguei, me apaixonei, despertei paixões, decepcionei a mim e a outros, bati de frente com chefe, participei de motinhos. Passei madrugadas aos risos com amigos, passei madrugadas sozinhas escutando música, escrevi... como eu escrevi naquela época! Conheci pessoas para a vida toda, conheci outras que passaram rápido e se foram.

Sei que a lista de Coisas de Nhangapi não é tão limitada como pareceu. Foram tantas luas, tantos nascer do sol que vimos juntos... quem participou desses momentos juntamente comigo deve concordar que valeu a pena pela experiência e pelas amizades que se formaram. Sou do tipo de reclama mesmo, se não está bom, não está. Mas também sou do tipo que procura mesmo nas fases ruins da vida, fases de que reclamei, algo que faça valer a pena.

Percalços no caminho de Nhangapi? Tivemos bastante. Mas nos fortalecemos, com certeza. E as peculiaridades daquele lugar ficaram por lá mesmo, só trouxemos o aprendizado, e o maior de todos (ironicamente falando) foi esse: Não gaste seu tempo estudando e sim fazendo amigos. Porque se você estudar, vai passar num consurso que te paga R$ 860,00, mas se tiver amigos, você será nomeada para um cargo em comissão em que fará o mesmo serviço e receberá por isso R$ 3.500,00.(Sábias palavras de um SEGOV fdp)





10 comentários:

  1. Ola Valquíria,
    Gostei muito da matéria de hoje!
    Creio que a proibição das balinhas se dava por conta da possibilidade de ter algum sonífero ou algo assim "no esquema balinha batizada". E sobre a proibição da carona é uma coisa que sempre me perguntei ao cruzar as estradas do Rio de Janeiro em que alguns pontos não existem nada, apenas um ponto de fiscalização, ou então um restaurante... Como os funcionários chegam e vão embora quando não tem carro já que os ônibus não param ali ?

    Ahhhh, e pão com carne só é gostoso mesmo no pé sujo, já repararam ? Não sei qual é o segredo, rsrsrrsrsrsrr...

    Abraços Flávio.
    --> Blog Telinha Critica <--

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  2. Me bateu uma nostalgia absurda lendo! Gente, quantas coisas....quanta vida em tão pouco tempo. Foi bom e viveria tudo de novo, graças a aquele mundo a parte, aprendi muito da vida e de tudo. A palavra que define é: saudades!

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  3. Valquíria, muito legal seu texto. Fui lendo e parecia que estava vivendo cada momento, cada situação descrita.

    Me fez lembrar meu primeiro emprego, que da mesma forma que você falou, seria hipócrita dizer que sinto saudade, mas sem dúvidas guardo bons e maus momentos e muito aprendizado.

    Grande abraço.
    (Se tiver um tempo leia meu conto:
    http://reflexoesdo719r.blogspot.com/)

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  4. Oi Val
    Desculpe a demora. Nossa, quando eu vi a chamada do seu post eu pensei que Nanga o que? Era uma ilhota da América Central afetada por algum tsunâmi (kkkkkkkkkk). Muito legal sua história, principalmente a de não poder ganhar balas de caminhoneiro, hilário! Mas estuda menina, que vc vai longe!
    Bjão. Uma ótima semana!

    http://ashistoriasdeumabipolar.blogspot.com.br/

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  5. Achei bem innteressante a forma como abordou o tema, retratando uma situação em particular... Tem uma pitada de humor e muita ironia...
    Gostei!

    ;D

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  6. Olá, Valquíria! Gostei muito do seu relato... eu que parmaneço aqui até hoje compartilho com você a idéia de que Nhangapi é um mundo à parte... e nele vemos passar várias pessoas maravilhosas e poucas, nem tanto. Ajudei a fazer a história das "balinhas" quando chefiei Nhangapi, com a intenção de manter a seriedade, com tolerância zero... nem era desconfiança dos funcionários, mas se abríssemos brechas para balinhas, a seguir poderiam vir chocolates, panetones, TV´s, e sabe-se lá mais oquê... rs. Certamente você aprendeu bastante aqui... é como um estágio POUCO remunterado para os auxiliares, mas sempre procuro passar justamente o inverso das palavras do fuincionário citado, vale à pena continuar estudando (você já provou que tem valor!) e subindo aos poucos... certamente poderá atingir patamares bem maiores do que o do "apadrinhado" e com estabilidade ficar livre de mudanças e da dependência de políticos. Tenha paciência, persistência e estude bastante. É o conselho de um ex-camelô... e siga a mensagem de um grande ídolo nosso: SE VOCÊ QUISER ALGUÉM EM QUEM CONFIAR, CONFIE EM SI MESMO! QUEM ACREDITA SEMPRE ALCANÇA! Um abraço! Saudades de todos!!!

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  7. kkkkkkkkk adorei o eskema da carona no caminhão! e prefiro ganhar mal e ganhar só o que eu conquistei com concurso do que com esse tipo de amizade...adorei o post! bjs

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  8. Como assim????? Se vc era fiscal do ICMS no posto fiscal de Nhangapi você recebia pelo menos 13.000,00 por mês. Vc era Auditor Fiscal da Receita Estadual do Rio de Janeiro. Vale a pena estudar sim para ganhar 13.000, 00 por mês. Melhor do que puxar saco para ganhar 3.500,00

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  9. Se vc era Auditor Fiscal do Estado do Rio de Janeiro ganhava 13.000,00 por mês. É muito mais que 3.500,00

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    Respostas
    1. Não, eu não era fiscal, era Auxiliar Fazendária e o salário era um vergonhoso R$ 800,00.

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Que bom que você leu o post até o final, sinal de que não era tão chato assim, neh? Seu comentário é muito importante para mim, não saia sem deixar um Oi, para eu saber quem veio me visitar. Sempre que posso, retribuo as visitas. Bjokas da Val!

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