Visitantes da tia Val

terça-feira, 10 de abril de 2012

Loucuras de Gina


Participação na 113ª Edição Visual do Bloínquês



"Ainda posso sentir o chão frio e úmido sob minha pele. Estaria chovendo ou inundei o mundo com minhas lágrimas?"

Terminei de ler a frase final da mensagem na tela do celular e o guardei no bolso lentamente, enquanto perguntava a mim mesmo como as coisas haviam chegado àquele ponto.

Conheci Gina no último ano da faculdade, ela veio transferida de uma cidadezinha do interior e nos apaixonamos em poucas semanas de convivência. Era uma garota inteligente, bonita e tinha um ar de menina levada que sempre me deixava curioso para desvendar qual seria sua próxima travessura. Uma vez ela encheu meu apartamento com balões de coração, e me lembro como foi difícil estourá-los para abrir caminho até o quarto, onde ela me esperava com a langerie mais sexy que já vi na vida.

Assim era minha pequena Gina: Garota viva, cheia de sonhos e ambições. Queria conquistar o mundo, queria viver, se arriscar e nunca se arrependia de nada. Foi por essa garota que me apaixonei. Não por essa maluca que agora me persegue e vive me mandando ameaças de suicídio do qual sou eu o culpado. Não... dessa vez ela não vai me fazer de bobo, não vou correr atrás dela como seu cãozinho protetor que está sempre a postos para salvá-la.

Lembrei do primeiro sinal das mudanças... Era sábado à noite, mas não estávamos juntos no cinema, nem na nossa pizzaria preferida, nem na praia, nem no meu apartamento. Aliás, eu estava em meu apartamento. Ela estava na balada, mas isso eu só descobri depois, através das fotos postadas na rede social de um primo do cunhado da vizinha de um amigo meu. Essas coincidências que só deveriam ocorrer em cidade pequena, mas não aqui, na cidade grande.

Um dia ouvi falar que minha pequena e doce Gina estava envolvida com droga pesada, mas isso era mentira. Ela me garantiu. É que com tanta gente falando tanta coisa, fica difícil separar o que é verdade do que é aumento da verdade e mais ainda do que é invenção. E as pessoas gostavam de inventar coisas sobre Gina, a garota do interior que estava conhecendo as coisas boas da vida.

Às vezes ela me ligava no meio da noite para dizer que me amava e isso enchia meu coração de alegria. Mas no minuto seguinte ela avisava que precisava de carona. E como eu poderia negar qualquer pedido feito com aquele jeitinho que só ela tinha? Afinal, Gina era ou não o grande amor da minha vida? Mesmo que estivesse bêbada, e seus lindos cabelos estivessem desarrumados e com forte cheiro de cigarro.

Com o tempo as pessoas perceberam uma coisa, e até tentaram me alertar. Eu estava anulando minha vida para viver as loucuras de Gina. Mas, imagina... quem poderia dar ouvidos àqueles invejosos? Tudo não passava de mais invenções a respeito de minha garota, ela jamais me usaria de capacho, como todos diziam.

Peguei novamente o celular no bolso e reli a mensagem. E se dessa vez ela estivesse falando sério? E se não fosse como das outras vezes que tentei deixá-la? Caminhei até o quarto e olhei o espelho ainda quebrado. Era como se estivesse vivendo novamente a cena, o acesso de raiva que teve quando eu disse que ela precisava ir embora. Eu sabia do que aquela Gina era capaz.

E aqui estou eu, com a chave do carro na mão, descendo as escadas desesperadamente em busca da minha menina. Enquanto dirijo, as palavras escritas na mensagem ecoam em minha mente. Eu sei que a culpa não é minha, ela mesma esteve buscando aquele caminho, mas Gina era assim... queria tudo ao mesmo tempo. Queria conhecer pessoas, bebidas diferentes, novas ondas, mas não queria me perder. Eh, ela queria e TINHA tudo ao mesmo tempo.

Desci do carro e fiquei de longe por dois segundos, apenas observando. Gina havia saído apenas com aquela camisola branca, aquela que a deixava ainda mais pueril, mais menina, mais minha... Os ônibus passavam em volta, os carros apenas buzinavam, os prédios se mostravam imponentes ao redor da praça. E no meio de tudo isso a avistei, parecendo um anjinho que descera junto com a água celeste. Os braços frágeis e muito brancos lhe serviam de travesseiro enquanto as nuvens derretiam-se em chuva diante de tanta beleza.

Minhas pernas me conduziram ao centro da cena que até então eu avistava à distância. Prometi a mim mesmo que aquela seria a última vez. E seria. Gina me esperava para despedir-se. Ela não aguentou segurar o mundo inteiro em suas mãos, mas preferiu perder tudo a ter que escolher.



9 comentários:

  1. Nossa perfeito!
    Parabéns Valquíria!
    O dois últimos parágrafos descrevem perfeitamente o que seria a essência da fotografia postada acima...

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  2. Oi Valquíria,

    Texto com essência e com um toque de realidade que nos apresenta os encontros e desencontros de uma relação.

    Beijos.

    Lu

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  3. Olá Valquíria! Gostei muito do desfecho.
    Realmente, ela tinha tudo e acabou optando pelo nada.
    Texto brilhante! Parabéns!

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  4. Que bom ver pessoas tão queridas por aqui me prestigiando. Valeu, galera, a opinião de vocês é sempre essencial pra mim, viu?
    Bjinhusssss

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  5. Oi Val
    Estou torcendo por vc querida. Seu texto é maravilhoso, e muito provavelmente, eu seja a única que entrei na mente da Gina e a entendo perfeitamente, as pessoas não escolhem ser assim muitas vezes.
    Bjão.

    http://ashistoriasdeumabipolar.blogspot.com.br

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  6. Val, demorei um pouco para entender a última frase. Li umas três vezes e consegui... simplesmente brilhante.

    Gostei do conto e da narrativa. Parabéns.


    (Sexta se puder leia o meu! :D)

    Abração.

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  7. Ola Valquíria,

    Quanta realidade contida em seu texto nesse universo tão complexo que é a relação entre duas pessoas. Adorei!

    Abraços Flávio.
    --> Blog Telinha Crítica <--

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  8. Amei Val, lindo ! Vocês e o Chris arrasam no Bloínques ! Tomara que os textos de vocês consigam ficar entre os 3 hehehe , um dia , eu tento! Beijão, www.spiderwebs.tk

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  9. Muito bem escrito, denso e instigante. Bjs!

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Que bom que você leu o post até o final, sinal de que não era tão chato assim, neh? Seu comentário é muito importante para mim, não saia sem deixar um Oi, para eu saber quem veio me visitar. Sempre que posso, retribuo as visitas. Bjokas da Val!

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