Visitantes da tia Val

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Dois anos de espera







-- Você não pode fazer isso comigo!
-- Por favor, não torne as coisas mais difíceis, a minha decisão já está tomada.
-- Você ainda vai se arrepender.
Era uma promessa, mas o rapaz não sabia disso. Ele tinha uma vaga idéia do quanto era importante para ela e se aproveitava disso todos os dias. Ela, mesmo sabendo que estava machucando a si mesma, dedicou sua juventude e pureza àquele moço de olhos azuis e sorriso branco.
Agora ela estava ali, abandonada, traída e arrependida. Arrependimento era um sentimento ruim, ela sentia na pele e queria que ele também sentisse. Lembrou-se de como era pura e ingênua quando o conheceu, lembrou-se das promessas nas quais acreditou e de todas as fantasias que criou. Olhou-se no espelho e viu no que se transformara: Um objeto... usado, descartado e agora sem nenhum valor.
Ligou o computador buscando refúgio da vida real na vida virtual, onde poderia ser o que quisesse, inclusive uma moça pura novamente, que não conhecia a dor e o sofrimento de um abandono. Poderia ser uma isca fácil para pegar algum destruidor de sonhos desavisado pelas ondas da net.
Princesa_18 era perfeita. Bonita, inteligente, carismática e virgem. Os homens ficavam loucos com ela, queriam conhecê-la, ser o primeiro, acabar com todo aquele pudor que irradiava da garota. Em um mês acumulou admiradores de todo o Brasil, recebeu propostas de casamento, promessas de família com um casal de filhos, exatamente como ela sonhara um dia com ele. Começou a estudar cada um dos pretendentes, interligando todos eles, na esperança de entender os pensamentos de um homem, e chegou a pelo menos uma conclusão: Todos querem uma moça perfeitinha. Para quê? Isso ela ainda não descobrira, embora já tivesse tirado suas conclusões, diante da experiência que tivera com ele.
Passaram-se dois meses do fim. Ela, assediada pela internet, vê uma visita inesperada: Ele. Pseudônimo: Principe_22. Só poderia ser ele, seria muita coincidência um fake com a foto dele procurar justamente por ela.
Começaram a conversar. O papo inicial não era muito diferente dos outros admiradores.

Principe_22 diz: Eu já sofri muito nessa vida, estou procurando um amor verdadeiro, mas hoje em dia está muito difícil encontrar uma moça assim como você.
Princesa_18 diz: Assim como eu? E como eu sou?
Principe_22 diz: Mulher pra casar. E é isso que estou procurando.

Ela analisava cada vírgula da conversa, dava corda, se insinuava para ouvir as pérolas dele. E seu coração acelerava a cada declaração de amor. Acelerava de ódio, e de expectativa: Seria aquela a grande chance que estava esperando?
Quanto mais seu coração se endurecia, mais meiga e apaixonada a Princesa_18 parecia estar. Uma vez o Principe_22 fez uma revelação que ela jamais esqueceria: “Eu já amei muito uma menina, mas a troquei por outra em um momento de fraqueza, agora é tarde, ela já não me ama mais. Ela seguiu a vida dela e vou seguir a minha, mas aprendi a lição, nunca mais cometo o mesmo erro”.
Passou-se seis meses daquele primeiro contato virtual. Oito meses do fim. E o coração dela já se tornara uma pedra de gelo. Passava por ele na rua e era como se não conhecesse, trocara o número de seu telefone e o bloqueara em todas as redes sociais. Ele achava estranho, se sentia incomodado, mas seu coração agora estava acelerado pela princesa dos seus sonhos. Certa noite o Principe_22 declarou as seguintes palavras: “Eu espero o tempo que for preciso para você me amar”. E, por incrível que pareça, estava sendo sincero.
Quando fizeram um ano de contato virtual, o Principe_22 começou a pressioná-la para se conhecerem. Até então, não era difícil evitar o encontro, afinal, a Princesa_18 morava em uma cidadezinha do interior de um estado muito distante do Príncipe. Mas depois de um ano, o rapaz estava completamente apaixonado, disposto a fazer qualquer coisa por sua princesa, inclusive atravessar o país para encontrá-la.

Princesa_18 diz: Ainda não estou certa sobre isso.
Principe_22 diz: Mas por quê? Você não me ama?
Princesa_18 diz: Eu tenho medo.
Principe_22 diz: Você não precisa ter medo de mim, eu já disse que te amo e vou me casar com você. Eu faço qualquer coisa por ti, por favor, deixe eu te mostrar o quanto estou apaixonado por você.
Princesa_18 diz: Preciso de mais um tempo.
Príncipe_22 diz: Eu espero, mas preciso saber que você também me ama, ou que pelo menos posso ter alguma esperança contigo.

Ela olhou no calendário: O dia do pé na bunda. Voltou para o bate-papo:

Princesa_18 diz: E eu preciso saber se você realmente me ama a ponto de esperar até a data que eu marcar agora.

Tensão no ar. A data era significativa para ela, mas para ele parecia uma data comum, um sábado qualquer. A memória de um príncipe não é tão romântica como a de uma princesa.

Príncipe_22 diz: É muito tempo, mas estou disposto a esperar, só para que você não duvide do amor que sinto.

Ela ficou confusa com aquela declaração. Perguntou-se se ele estaria realmente apaixonado pela Princesa_18 e o gelo de seu coração deu uma leve estremecida com a dúvida. Todos os demais pretendentes da princesa já haviam desistido, mas o príncipe continuava ali, firme à espera de sua chance.
Durante os meses seguintes, príncipe e princesa viveram um grande amor virtual, ansiosos pelo momento de se encontrarem e finalmente poderem viver esse mesmo amor na vida real. Ele começou a juntar dinheiro para a viagem, vendeu a moto e o vídeo game de última geração, pesquisou tudo sobre a cidade de sua amada, desde local para hospedagem até possibilidades de emprego. Mas de todos os preparativos, o mais audacioso foi a compra das alianças e a gravação dos nomes.
-- Dependendo desse encontro, eu nem volto mais – disse ele a um amigo, dois meses antes da viagem. Ela ficou sabendo desse comentário e concluiu: Não era só um joguinho de conquista, ele realmente amava uma princesa que já tivera em seus braços, porém não existia mais.

Finalmente o grande dia. O Principe_22 avisara que não precisava buscá-lo na rodoviária, faria uma surpresa, e isso deixou o coração dela mais feliz, seria muito mais divertido fazer ele procurá-la no endereço, do que deixá-lo esperando na rodoviária.  Dois anos de espera. Ela só lamentava não estar lá para testemunhar o arrependimento que prometera um dia.
E ele de fato se arrependeu. Quando chegou à casa de portão branco e viu que ninguém conhecia sua princesa, um vazio enorme invadiu o coração dele. Ainda insistiu com os vizinhos, mostrou as fotos da princesa, mas ninguém nunca a havia visto em toda a cidade. Passou por uma ponte na volta para a rodoviária e pensou em jogar-se dali, dar cabo de sua vida, que não lhe servia para mais nada. Mas seu coração mandou que voltasse para casa, onde estava sua verdadeira princesa.
E lá estava ela: O olhar frio, o coração vazio de amor e nos lábios as palavras:
-- Eu disse que você se arrependeria.



 


  Bem, resolvi voltar ao blog já participando na BC em homenagem ao aniversário de 2 aninhos do Escritos Lisérgicos,  com o tema: Dois anos.



10 comentários:

  1. Val! Primeiramente, seja muito bem vinda de volta à blogosfera parceira (parceira sim, sempre, desde quando parceria tem validade? rs).
    Sua participação foi muito interessante, um tapa na cara de quem julga as pessoas, trai sem pensar e depois, quando se arrepende, pode ser tarde.
    E quantos príncipes e princesas não estão por aí desconhecendo o valor da pessoa que está ao seu lado?
    Eu gostei muito do desenvolvimento do texto, envolvendo o contato cibernético. Não sei se leu, mas escrevi uma estória semelhante acerca dos contatos cibernéticos, quando quiser ler, procure pelo título "O que os olhos não veem, o coração não ouve".
    Foi um presente de aniversário para o Lisérgicos o seu retorno.
    Muito obrigado por reestrear na comemoração de dois anos e, principalmente, por comemorar comigo.
    Abraço.

    => CLIQUE => ESCRITOS LISÉRGICOS...

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  2. Oi Val
    Muito bom amiga! Vc não enferrujou nesse tempo que ficou parada kkkkkkk. Que texto maravilhoso que me prendeu do começo ao fim. Como diz meu filho Daniel, o príncipe se deu mal kkkkk.
    Bjos.

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  3. Olá, querida
    É bom a gente estar com os pés no chão porque o virtual pode nos trair muito... tenho visto que é assim... mas acredito que há exceção e tenho visto coisas lindas acontecerem também...
    Meu tio e tia se casaram há 22 anos e vivem super bem através de um contato postal (não tinham acesso à net)... Mas marcaram de se encontrar pela cor da roupa e local... rs... Ele me diz sempre: quem não arrisca, não petisca!!!
    Bjm de paz e pascal

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  4. Olá Valquíria, menina, vc arrasou! Que conto maravilhoso, eu amei. Parabéns e seja bem vida, já que vou disse ter passado um tempo fora do ar. Eu também estou participando, Um bj e sucesso.
    => Gritos da alma
    => Meus contos
    < => Só quadras

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  5. Oi Valquíria,
    muito bem engendrada esta volta por cima.Uma vez princesa, sempre princesa__ não perde a majestade na adversidade.Teu conto tem muito de verdade.
    Parabéns pela participação.
    Um bjo,
    Calu

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  6. Val, seu texto ficou bem atual, o mundo está cada dia mais virtual... parabéns pela participação. abraços

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  7. Oi Valquíria
    Seu conto ficou fantástico, digno de uma excelente escritora que você é.
    Parabéns
    Beijos
    Lua Singular

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  8. Uma boa história de vingança, do tipo servida bem fria.

    Excelente, muito bem redigido. Parabéns!

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  9. Oi.. nossa o texto ficou perfeito..
    Eu adorei.. me prendeu do início ao fim..
    Essa BC do Chris está maravilhosa né?
    Ele merece todo esse nosso carinho.. é uma pessoa espetacular..

    Um super beijo e uma noite linda..
    Sheila

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  10. Olá Val.
    Amei o seu texto, fiquei presa a ele, curiosa por um final.
    Não se deve brincar com o amor de uma mulher. Parabéns.
    Beijinhos.

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Que bom que você leu o post até o final, sinal de que não era tão chato assim, neh? Seu comentário é muito importante para mim, não saia sem deixar um Oi, para eu saber quem veio me visitar. Sempre que posso, retribuo as visitas. Bjokas da Val!

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